Hemodiafiltração: Quais São os Parâmetros Ideais na Prática Clínica?

Introdução

A hemodiafiltração (HDF) tem se consolidado como uma estratégia dialítica avançada, e de alta qualidade, combinando os princípios de difusão, assim como na hemodiálise convencional e convecção (arraste de moléculas) para ampliar a depuração de moléculas maiores.

Estudos observacionais e ensaios clínicos, como o Estudo Catalão ESHOL e o Trail randomizado CONVINCE, sugerem benefício clínico quando volumes convectivos elevados são alcançados com segurança.

Para todos os profissionais da saúde, compreender os parâmetros que levam as boas práticas de HDF é fundamental para garantir eficiência dialítica, com segurança ao paciente e estabilidade hemodinâmica.

Este artigo tem como objetivo, apresentar um modelo prático e técnico dos principais parâmetros que impactam o desempenho da HDF na rotina clínica.

Fundamentos da Hemodiafiltração

A HDF combina duas modalidades de terapia dialitica em uma, utilizando a difusão, para a remoção de pequenas moléculas como ureia, creatinina e a convecção, que realiza aremoção de moléculas médias como β2-microglobulina e citocinas.

O mecanismo convectivo, da terapia, depende diretamente do volume de substituição infundido, que está relacionado ao fluxo sanguíneo efetivo e ao tempo de sessão.

1. Fluxo Sanguíneo (Qb): Fator principal

A Recomendação prática é de fluxos ≥ 350–400 mL/min, para uma boa convecção, porém o mínimo aceitável para HDF de alto volume: ≥ 300 mL/min. O volume convectivo possível é diretamente proporcional ao Qb real. Qb baixo limita varios fatores da terapia como:

  • Fração de filtração
  • Volume de substituição
  • Depuração de moléculas médias

Os profissionais ligados a realização da terapia, devem ficar atentos as condições que possam impactar no resultado da terapia. Sempre devem observar e intervir:

✔ Avaliar funcionalidade do acesso vascular
✔ Monitorar pressões arterial e venosa
✔ Identificar sinais precoces de recirculação

2. Tempo de Sessão

O tempo de sessão, também tem impacto direto no volume de convecção. A recomendação prática, para atingir volumes convectivos altos é de 4 horas ou mais. Sessões curtas reduzem a possibilidade de atingir volume convectivo alvo.

O volume convectivo total depende da equação simplificada:

Volume convectivo total ≈ Fluxo de substituição + UF clínica × Tempo

Assim, mesmo com Qb adequado, sessões reduzidas podem comprometer substancialmente o desempenho esperado na terapia.

3. Volume Convectivo Total: O Principal Marcador de Qualidade

Diversos estudos validados apontam que volumes convectivos elevados estão associados a melhores desfechos. Para isso a meta observada nestes e recomendada é ≥ 23 litros por sessão (pós-dilucional). Estes estudos demonstram redução de mortalidade em pacientes que atingiram volumes elevados reforçando a importância da HDF de alto volume com segurança operacional.

Para que o volume convectivo seja atingido, é necessário que alguns critérios sejam atingidos como:

  • Qb adequado
  • Controle da fração de filtração
  • Monitorização constante de pressões transmembrana

4. Fração de Filtração (FF)

Observar a fração de filtração é mais do que apenas ver um número na terapia, ela é responsável por manter a estabilidade de pressões do sistema de sangue até o final da sessão. Para que essa estabilidade se mantenha, o valor ideal da FF deve ficar entre 20 e 25%, Valores acima de 30% aumentam risco de:

  • Hemoconcentração
  • Coagulação do sistema
  • Elevação da pressão transmembrana

É fundamental que o profissional de saúde monitore:

  • Tendência de aumento progressivo da TMP
  • Formação de coágulos no filtro
  • Necessidade crescente de intervenções, para correção de volume de substituição ou de sangue no equipamento

5. Volume convectivo Total

Na HDF, o volume convectivo total é composto pelas UF clínica (remoção de volume do paciente) e UF adicional convectiva (volume de substituição)

Fórmula simplificada:

Volume Convectivo Total = UF clínica + UF adicional convectiva

Exemplo:

Um paciente com uma UF clínica de 2,5 L, com uma prescrição de substituição de 23 L, leva a realização de uma UF adicional convectiva igualmente ao valor de substituição 23 L, logo o valor de UF total do sistema será de 25,5 L, a esse valor chamamos de Volume Convectivo total. Esse volume elevado exige estabilidade hemodinâmica e de fluxos adequada.

6. Estabilidade Hemodinâmica

HDF de alto volume pode melhorar tolerância hemodinâmica quando bem conduzida, mas como toda terapia extracorpórea tem seus riscos e estes incluem:

  • Hipotensão intradialítica
  • Cãibras
  • Sintomas autonômicos
  • Hipoglicemia
  • Alcalose
  • Hipocalemia

Estratégias práticas

✔ Ajuste individualizado da taxa de UF, buscando uma retirada controlada do peso do paciente


✔ Controle de temperatura do dialisato, como estratégia de manutenção da PAS


✔ Avaliação de peso seco, pois esses pacientes têm tendencia a melhora de alimentação e consequente ganho de massa muscular

✔ Realizar uso de soluções de fração acida com glicose

✔Acompanhar a concentração de Bicarbonato pré dialise do meio da semana em pacientes com introdução recente na terapia

✔ Acompanhar a concentração de Potássio pré dialise do meio da semana em pacientes com introdução recente na terapia


✔ Comunicação ativa com o paciente para identificação de quaisquer alteração ou sintomas

7. Anticoagulação Eficaz

A anticoagulação deve ser suficiente para prevenir coagulação extracorpórea, sem aumentar risco hemorrágico. Podendo utilizar:

  • Heparina não fracionada
  • Heparinas de baixo peso molecular

A escolha depende de:

  • Protocolo institucional
  • Risco hemorrágico
  • Perfil do paciente

Monitorar:

  • Formação de fibrina
  • Coagulação parcial do circuito

Organograma Integrado da HDF

Gráfico Conceitual: Relação entre Qb e Volume Convectivo

Quanto maior o Qb real sustentado, maior o potencial de volume convectivo atingível.

Checklist Prático para Equipe de Saúde

Antes da sessão

☐ Avaliar acesso vascular
☐ Conferir prescrição
☐ Checar anticoagulação
☐ Definir meta de volume convectivo

Durante a sessão

☐ Monitorar TMP
☐ Observar sinais de coagulação
☐ Avaliar estabilidade hemodinâmica
☐ Confirmar volume convectivo acumulado

Após a sessão

☐ Confirmar volume final alcançado
☐ Registrar intercorrências
☐ Avaliar adequação dialítica

Pontos Críticos e Limitações

Nem todos os pacientes são candidatos ideais à HDF de alto volume, assim como qualquer tipo de tratamento, é fundamental a individualização da terapia ofertada. Existem limitações para a indicação do paciente a terapia e estão ligadas a acesso vascular inadequado com fluxos baixos, instabilidade hemodinâmica recorrente, distúrbios de coagulação diversos, baixa adesão ao tempo de sessão total por sessão e intolerância a altos fluxos de sangue (Qb). A individualização é mandatória e é responsável pelo sucesso da terapia.

Hemodiafiltração Pré-dilucional: Quando Utilizar?

A hemodiafiltração pode ser realizada em duas modalidades principais:

Na modalidade pré-dilucional, o fluido de substituição é infundido antes do filtro (antes do dialisador), promovendo diluição do sangue antes da passagem pela membrana, reduzindo assim o risco de hemoconcentração e a eficácia da terapia, com o mesmo volume de substituição.

Indicações Clínicas da HDF Pré-dilucional

A pré-diluição é especialmente considerada quando há:

1. Fluxo sanguíneo é limitado

  • Qb < 300 mL/min
  • Acesso vascular de baixa performance
  • Fístulas com tendência a colabamento

2. Alto risco de coagulação do sistema

  • Hematócrito elevado
  • Hiperviscosidade
  • Tendência à elevação da PTM por impossibilidade de uso de anticoagulante

3. Instabilidade hemodinâmica

  • Pacientes com hipotensão frequente em uso da HDF pós dilucional
  • Idosos frágeis sem tolerância a altos fluxos de Qb
  • Cardiopatas avançados, com alteração hemodinâmica em terapia

4. Cenários técnicos específicos

  • Em protocolos japoneses seu uso amplamente difundido, devido ao uso de fluxos de sangue baixos
  • Unidades com política de segurança voltada à redução de hemoconcentração

Aspectos Técnicos da HDF Pré-dilucional

Na terapia HDF com substituição pré-diluição o sangue é diluído antes da filtração, isso leva a hemoconcentração intradialisador reduzida e assim a fração de filtração pode ser maior sem risco imediato de coagulação. Contudo, ocorre um efeito importante:

A diluição prévia reduz a concentração de solutos no plasma que chega à membrana, diminuindo a eficiência convectiva por litro infundido.

Isso significa que, para alcançar eficácia semelhante à pós-diluição, são necessários volumes convectivos significativamente maiores.

Comparação Técnica: Pós vs Pré-diluição

ParâmetroPós-diluiçãoPré-diluição
Local de infusão da substituiçãoApós o filtroAntes do filtro
Eficiência por litroAltaMenor
Risco de hemoconcentraçãoMaiorMenor
Risco de coagulaçãoMaiorReduzido
Volume necessário para mesma eficácia≅ 23L1,5 a 2 vezes maior
Indicação preferencialQb elevadoQb baixo / risco de coagulação

Volume Convectivo na Pré-diluição

Enquanto na pós-diluição a meta é ≥ 23 L por sessão, na pré-diluição para alcançar depuração semelhante, frequentemente são necessários volumes que chegam a valores de 40 a 50 L por sessão.

Essa diferença ocorre pela diluição plasmática antes da filtração, estudos do grupo europeu de diálise (EUDIAL) e análises fisiológicas demonstram essa necessidade de ajuste volumétrico, para alcance do mesmo benefício clínico, quando comparamos as terapias.

Benefícios da HDF Pré-dilucional

✔ Redução significativa da hemoconcentração
✔ Menor elevação da pressão transmembrana
✔ Menor risco de coagulação do sistema
✔ Maior tolerância em pacientes instáveis
✔ Permite uso mesmo com Qb menores

Para a enfermagem, isso se traduz em:

  • Menor necessidade de intervenções por coagulação
  • Menor troca precoce de filtro
  • Maior estabilidade do circuito

Limitações da HDF Pré-dilucional

  • Menor eficiência por litro infundido
  • Necessidade de volumes convectivos maiores
  • Maior consumo de fluido de substituição
  • Pode demandar tempo de sessão maior
  • Benefício clínico em mortalidade menos consistente que na pós-diluição de alto volume

Os grandes ensaios clínicos de impacto em mortalidade, como o Estudo ESHOL e o Trial Randomizado CONVINCE, foram conduzidos predominantemente com pós-diluição de alto volume, o que reforça sua posição como padrão preferencial quando tecnicamente possível.

Considerações Práticas para a Equipe de Saúde

Em HDF Pós-dilucional:

  • Monitorar TMP de forma rigorosa
  • Avaliar sinais de hemoconcentração
  • Ajustar fração de filtração sempre que necessário

Em HDF Pré-dilucional:

  • Monitorar volume total infundido
  • Garantir adequação do tempo de sessão para atingir todo o volume convectivo
  • Avaliar eficiência dialítica global (Kt/V, redução de β2-microglobulina)

Conclusão

A hemodiafiltração on-line representa uma evolução técnica relevante na terapia renal substitutiva. No entanto, seu benefício clínico depende da execução adequada dos parâmetros operacionais.

Para enfermeiros, residentes e técnicos de enfermagem, compreender a relação entre: Fluxo sanguíneo, tempo de sessão, fração de filtração, volume convectivo, ultrafiltração total, estabilidade hemodinâmica e anticoagulação, é determinante para transformar prescrição em resultado clínico real.

A HDF pré-dilucional pode ser uma alternativa valiosa em cenários de limitação técnica ou risco aumentado de coagulação, ampliando a aplicabilidade da terapia.

A escolha não deve ser dogmática, mas baseada em:

  • Perfil clínico do paciente
  • Condições do acesso vascular
  • Capacidade operacional da unidade
  • Monitorização adequada da equipe

A excelência na HDF não depende apenas da tecnologia, mas da capacidade crítica da equipe em ajustar parâmetros à realidade clínica.

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